10/15/2008
Adeus a todos (por enquanto)
Esta carta serve para me despedir de meus poucos e compreensivos leitores. Não porque queira deixar de escrever, ou mesmo de manter um blog. Pelo contrário. Quero continuar produzindo mais e com afinco agora. Só que melhor.
O Mico-que-queria-ser-ingênuo acabou sendo um momento de transição em que as coisas estavam um pouco sem foco para mim, e, conseqüentemente para o blog em si. Tem muito impulso cru aqui, poesia, crítica política, variedades, comentários sobre teorias científicas que volta e meia aparecem mal-explicadas e mal-feitas em muitos veículos de divulgação – até mesmo crítica esportiva; enfim, muita generalidade, muita vontade, mas também amadorismo, pouco foco, pouca sistematização. Estou chegando a uma fase de minha vida a partir da qual quero fazer somente as coisas que puder fazer bem-feitas. E o Mico não está nem de longe bem-feito – escrevo muito esparsamente, apesar de isto em si não ser o maior defeito da coisa; além de ritmo, falta método, coesão, estilo. O leitor não tem a menor idéia do que vai encontrar ali a próxima vez que acessar a página. Concordo que surpresas são boas, mas o jogo entre a surpresa e a expectativa do leitor precisa acontecer dentro de certas regras.
Quando comecei o blog, era professor ainda. Um dos primeiros textos que escrevi tem a ver com racismo, rebatendo a ideologia que via impregnada nas redações de muitos alunos meus quando discutíamos as políticas afirmativas, discussão que sentia ainda muito superficial no material que tinha de coletar na internet e em outros meios. Queria talvez compensar a superficialidade que enxergava nos textos a respeito da questão.
Mas também houve outro motivo que me levou a escrever aquele texto, motivo que hoje vejo preponderante: a provocação involuntária de alguns dos estudantes que diziam a nós, professores, que nossa função se resumia apenas em criticar o trabalho deles, evidentemente frágil, mas não compúnhamos nossas próprias idéias, ainda que fosse como modelo. Faltavam exemplos para eles do que seria uma dissertação. Claro, eu poderia responder procurando fóruns e blogs nos quais houvesse mais seriedade a respeito do assunto e suprir-lhes o modelo necessário; só que havia um componente da reclamação que não era apenas o “Por favor, me dê algo por meio da qual possa me guiar”. Quando ensina a nadar, o professor de natação entra na água efetivamente; quando um ator passa seu conhecimento para a turma, perfaz ele mesmo os exercícios junto com todo mundo, atraindo admiração; o estudante se expõe ao nos entregar a redação. Por que não podemos dar o exemplo e nos expor. Na época, preferi aceitar o desafio – julgava estranho alguém incitar os outros a escrever e ele próprio abrir mão de fazê-lo.
Ao escrever, no entanto, acabei descobrindo uma lacuna imensa: hoje, a tarefa de compor um ponto de vista e acreditar no que dizemos é das mais difíceis. Para aceitar as coisas como estão, ou se é ingênuo, ou hipócrita. Ingênuo eu tentei ser; para hipócrita não levo jeito.
Porque digo acreditar mesmo, de coração, e pra valer, e durante um bom tempo. Disso, mesmo no texto sobre racismo que compus, tenho minhas dúvidas - já sinto diversas fraquezas argumentativas. Muito do que coloquei lá, hoje questiono.
Sabe aquelas bobagens que todo mundo fala sem se dar conta?: “Se o governo investisse em educação, a violência diminuiria”; “O rombo na previdência é uma conseqüência do aumento da população idosa, e o Brasil vai enfrentar esse problema depois de alguns anos”; “O controle de natalidade resolve o problema dos pobres”. Será?
A gente percebe que essas bobagens estão profusas por todos os cantos. As causas disso têm a ver com a sociedade especializada em que vivemos. Certas pessoas estão autorizadas a dar veredictos a respeito de certos assuntos, e desse fato natural, aceito sem questionamento, generalizamos a coisa e deixamos de nos opor a idéias que, se examinarmos a fundo, são estapafúrdias.
Por agora, vou deixar de lado essa questão, senão perco o fio da meada. Mais adiante eu a trabalharei num projeto mais focado. Por ora, importa a descoberta empírica que tive: as coisas, como estão colocadas para a gente, fabricam estupidez. Curtis White, Noam Chomsky, dentre outros dos críticos mais lúcidos já tinham alertado. A incomunicabilidade gerada pelos intermediários produz estupidez.
Com o passar do tempo, enxerguei problemas em tomar partido nas questões de acordo com as grandes correntes, tanto num e quanto noutro sentido, em quase qualquer assunto. Exemplo: a própria teoria darwiniana de análise da psique humana, que num certo sentido eu tanto questionei. É uma teoria importantíssima, e que ainda não entrou na corrente sangüínea do pensamento brasileiro, ficando restrita a círculos acadêmicos. A teoria coloca em xeque certos dogmas das ciências sociais bem questionáveis se pensarmos bem.
O fato é que se nota um fosso de comunicação que distorce a coisa toda antes que ela chegue a nós. As mídias de massa deveriam pertencer a diversas tendências e absorver a teoria de diversas formas, de modo a possibilitar às pessoas um leque para a formação de opinião de maneira satisfatória quanto os assuntos mais específicos. A cadeia funcionaria perfeitamente, sem problemas. Os jornais ou revistas colocariam as conclusões de uma maneira simplificada, cada qual de acordo com sua ótica, e a diversidade natural dos canais se encarregaria de criar um número interessante de caminhos até o conhecimento especializado.
Porém, o dinheiro compra os canais mais fáceis e acessíveis a todos e impõe sua lógica de divulgar as coisas de acordo com a conveniência. A direita amplifica certos aspectos da teoria e ofusca outros. E o que deveria ser a resistência intelectual bruxuleia num limbo que vai do hermetismo à negação. O cara de esquerda tem pavor da coisa, não ousa tocá-la – afinal, seu pensamento é marxista e ele não se dignará a sequer folhear uma teoria desprezível que procura reduzir os seres humanos a um “punhado de cálculos determinados geneticamente”. Não, dizem eles, somos “mais do que isso” – mas falta definir o quê e provar. Vendo a omissão da esquerda, que deveria ao menos ler e propor argumentos legítimos para refutar a coisa, e fica, em vez disso, apenas trancados nos seus castelos de marfim de teorias clássicas, sem renovar o pensamento, a direita se aproveita da situação e seleciona apenas o que lhe interessa para divulgar. Então, o contato que temos é com uma coisa medonha e ruim, invocada na grande imprensa para justificar qualquer tipo de preconceito ou relação social. E eu, um leigo, não consigo encontrar quem tente entendê-la em sua riqueza a sério, ou comentá-la.
E uma teoria que deveria suscitar discussões pra valer, renovação do debate clássico entre Platão e Aristóteles – o conhecimento que temos é fruto de leis abstratas anteriores ao nosso nascimento, no caso genéticas, ou fruto da experiência? Até bem pouco tempo atrás, todos os problemas tinham raízes na análise psicológica ou social: uma variação da proposição romântica do mito do bom selvagem. Críamos em Aristóteles – isto é, que o homem basicamente aprende imitando e que se mudássemos os parâmetros sociais, as pessoas mudariam. Mas em que medida isso realmente é verdadeiro? Um professor meu de literatura brincava dizendo que o grande problema estava nas mães; se todos fôssemos filhos de chocadeira, os problemas do mundo estariam resolvidos. Acho que a ironia passou despercebida pela maioria – ninguém quer pensar que talvez exista algo errado no seu arcabouço teórico favorito. Assim, uma coisa que renova nossa maneira de enxergar os seres humanos passa despercebida, ignorada, completamente deturpada de um lado por revistas feitas para a massa de leitores pouco instruídos, ou ignorada por quem poderia entrar no debate em condições. De um lado, omissão; de outro, oportunismo. Como sempre acontece nas colônias.
É um tempo de homens partidos esse em que estamos mesmo – as ideologias e descobertas valem mais como uma bandeira de time de futebol para escolhermos lados e gritarmos “Sou, sou de esquerda eu sou! Vou dar porrada eu vou! E ninguém vai me segurar, nem Ditadura!” , enquanto do outro lado, outros secundam “Sou de Direita, com muito orgulho, com muito amoooor”.
Enfim.
Comecei realmente buscando provar para um aluno que se pode fazer um debate. Sim, se pode, mas está cada dia mais difícil. Mesmo as fontes “melhores” estão cada dia mais questionáveis.
Houve reviravoltas na minha vida pessoal durante todo esse tempo de quase dois anos, passei de professor a funcionário público, com vários estágios intermediários, candidato a mestrando, viajante, vendedor de artigos para turistas, atendente de telemarketing. Algumas dessas vicissitudes estão espelhadas em ensaios atípicos, como o da noite portenha. Mas posso dizer com orgulho que elas não foram determinantes no resultado dos textos.
Porque o trabalho foi fundamentalmente sobre a comunicação entre pessoas diferentes, verdadeiramente diferentes. Hoje enxergo.
O tema aparece em poemas como “Municação” e “Anarquia”, na série buscando colocar em pauta uma teoria para entender o ser humano que encontrou pouca consideração por parte da intelectualidade séria brasileira (mas, por favor, se virem um debate assim, mandem-me: adoraria estar errado); na análise de comportamento de pessoas com moral bisonha, ainda que representativa; na análise do Jardineiro Fiel – um filme realmente sublime na minha opinião, melhor feito em termos de cinema que Ensaio sobre a cegueira, apesar da minha queda por qualquer coisa do Saramago que me caia nas mãos.
Nesse meio tempo, li outro livro que me incendiou um pouco a mesma questão, O senhor das moscas, de William Golding. E a questão é: Podem duas pessoas diferentes se entender?, sem que elas passem a usar as idéias para conseguir vantagens, ou para exercer arbitrariedade umas sobre as outras?
O Mico... talvez fosse o meu esforço de tentar ser ingênuo no melhor sentido da palavra, de acreditar nas ideologias e defendê-las tal qual um adolescente ou um militante que nunca tinha sido, um trabalho, na verdade muito mais de autodescoberta que qualquer outra coisa. Espaço de experimentação enquanto, sem perceber, amadurecia em direção à vida adulta, aquela a partir da qual começamos a ganhar consciência de nossa busca, de nosso destino. Hoje estou muito mais perto de descobrir o objeto que determinará minha trajetória como ser humano.
Por isso mesmo, vejo que é hora de terminar. Eu não quero mais ser ingênuo, nem no melhor sentido da palavra – eu sou, negando. Acredito no que não se vê com os sentidos com mais força do que nunca porque provei a força paradoxal dessa “não-existência”. Hoje enxergo claramente que os discursos têm uma consistência maior que uma fábrica. E que as pessoas vivem apenas uma vida, em vez de muitas como antigamente, geralmente fechadas em si mesmas, em nichos. E esse é o inimigo que quero combater, a nichificação, a divisão do mundo em castas.
Lembro de Huxley, em Brave New World:
"... all wear green," said a soft but very distinct voice, beginning in the middle of a
sentence, "and Delta Children wear khaki. Oh no, I don't want to play with Delta
children. And Epsilons are still worse. They're too stupid to be able to read or write.
Besides they wear black, which is such a beastly colour. I'm so glad I'm a Beta."
Em comum permeando as castas de hoje, apenas o fato de que nos vemos divididos entre hedonistas e sentimentais, no mundo inteiro, seja na Nova Iorque de Sex and the City, na América Latina que ouve os ritmos caribenhos eróticos, nas favelas onde circulam as tchutchucas, muitas vezes evangélicas, opondo-se às cachorras do funk carioca. O drama humano que ganha espaço na mídia é aquele que acontece quando alguém que quer ser cachorra age como uma tchutchuca, ou vice-versa, homem ou mulher.
Aí me vem a pergunta: É só isso mesmo? É realmente essa a grande questão? Tchutchuca ou cachorra? Samantha Jones versus Charlotte York?
Será que ninguém se incomoda com o fato de que todos criticam a “sacanagem no cinema nacional”, mas adoram Sex and the City? Ou a mesma “vulgaridade” que tanto atacam no funk está presente nas músicas black que a mesma elite ouve sem o menor problema? Sim, eu talvez esteja errado, talvez não seja deste mundo.
Em vários lugares por onde andei a estrutura sempre a mesma: ou você faz parte da minha turma, ou não; ou você está dentro, ou está fora. “Na minha turma, as pessoas se vestem de um jeito cool, usam palavreado assim, ouvem música assado, fazem um mestradinho e não namoram”; “Na minha, por outro lado, damos muito valor à monogamia, aos carros, e só os casados entram, mas traímos sistematicamente nossas esposas que não amamos e que “penetramos como quem enfia o dedo no nariz””; “Na minha, ter cultura é fundamental – você já viu a última montagem de Bizet?”; “Na minha, somos todos gays esclarecidos, sendo a heterossexualidade a última doença a ser curada”. Eu realmente gostaria de imaginar o que une um grupo ao outro, e talvez seja somente a exclusão que um promove dos elementos exógenos. O sistema sempre o mesmo, se você é da minha turma, seja nacionalidade, crença artística, nível social, comportamento sexual, eu te escuto – não porque te entenda particularmente, mas para comprar sua atenção como um novo participante do meu grupo, um comércio de comportamentos sociais; mas se você não é da minha turma, com licença, tenho mais o que fazer.
Qual é o problema com os nichos?, me perguntam, “as pessoas precisam se afirmar – assim é a vida”. Ok, penso, mas será que essas pessoas não percebem que justamente a política de “cada um no seu quadrado” é que constitui a tática de dominação por excelência hoje? Que permite que os responsáveis pelas torturas durante o regime militar continuem impunes? Que deixa as minorias no mundo à mercê de fatores aleatórios?
Vou dar exemplos, para que isso não pareça discursinho - estou falando do aqui agora, não de coisas que "podem acontecer".
Há haitianos que não conseguem comprar comida por causa de flutuações quase no mercado de petróleo, e que por isso são obrigados a comer bolacha de terra. A coisa aparece para a gente como se se tratasse de um tornado, algo natural, fora do nosso alcance resolver. Tudo o que temos a fazer é enviar ajuda às vítimas da catástrofe.
Milhões (talvez bilhões) de pessoas são obrigadas a viver uma vida miserável do lado pobre das fronteiras, isso porque o dinheiro circula livremente entre os países, mas as pessoas não. O mundo é do dinheiro, não das pessoas. O dinheiro elege candidatos, o dinheiro efetivamente faz cumprir ou não a lei, e faz as coisas acontecerem. Isso também é “natural”. O dinheiro dos países que têm dinheiro destrói as condições de vida nos países menos favorecidos – porque entra e sai à vontade – mas no momento de pagar o preço por essa destruição, isto é, receber os imigrantes que fogem do caos gerado em suas terras, fecha as portas. Mas isso também é “natural”.
Não, não tenho soluções. Apenas vejo – ou melhor, faço questão de querer ver – os problemas.
Porque acredito que todos têm capacidade de ver os problemas, sou contra a idéia de que alguém precise ter erudição, ou um monte de conhecimentos específicos para ter o direito a ter opinião. Ou que o povo “precise de instrução”. Claro, existem opiniões melhor defendidas que outras, mas a percepção e intuição dos fenômenos, essas existem antes de nascermos, são frutos de um conhecimento que vem nos genes. Idiota ninguém é. Todos os seres humanos, dizem os cientistas mais entendidos, têm órgão(s) mental(is) para lidar com os aspectos da vida social: sabemos de berço o que é trapaça. Os grandes escritores nunca ignoraram esse detalhe, por mais marxistas que fossem suas opiniões. Em Vidas Secas, Fabiano no fundo sabe que está sendo trapaceado por seu patrão, ainda que careça de meios para provar. E o trabalhador que porventura não lembre mais disso, não é porque deixou de aprender alguma lição na escola: mas sim porque a vida, a pontapés, fê-lo esquecer.
(Acho que um conhecimento normalmente veiculado pela direita foi usado para embasar uma tese de esquerda. Sim, há esperança!)
De qualquer modo, são apenas alguns elementos que trabalhei ao longo deste um ano e meio, de modo amador e fragmentário aqui. Peço perdão e agradeço a paciência dos meus (poucos) leitores, encerrando essa experiência com o entusiasmo de quem planeja coisas melhores para antes do fim do ano.
Um grande abraço a todos!
7/14/2008
Desculpas? Para uma prostituta?
O meio-campo Marcinho, do Flamengo, que foi acusado de agressão por uma garota de programa durante uma festa no sitio do goleiro Bruno, em Ribeirão das Neves (MG), companheiro dele de clube, ligou para a vítima e pediu desculpas a ela.
Marcinho e um homem que se identificou como empresário do jogador ligaram para mulher quando ela registrava queixa na Delegacia de Proteção à Mulher, em Belo Horizonte.
A agressão teria acontecido depois que o atleta teria tentado fazer sexo sem camisinha com uma das garotas que participavam da festa no sítio que fica em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte.
A mulher alega que foi espancada depois que se negou a transar com Marcinho sem o preservativo. Três garotas de programa compareceram à delegacia e registraram queixa contra o jogador.
Em entrevista à Rede Record, as vítimas afirmaram que Marcinho estava bêbado no momento das agressões. E que os outros jogadores do Flamengo também haviam bebido. No momento da gravação, um homem que disse ser o jogador pediu desculpas várias vezes pela agressão.
Marcinho se disse arrependido e afirma que sua imagem seria muito prejudicada caso elas registrassem a queixa e o caso se tornasse público.
"Eu não tava ciente, eu tava bêbado. Eu tô pedindo desculpa. Do fundo do meu coração, estou pedindo desculpas. Eu estou arrependido do que eu fiz. Eu quero conversar com você pessoalmente e isso vai me prejudicar demais, você sabe disso", disse.
http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3001714-EI5030,00.html
Não há como duvidar da sinceridade do atleta em dizer que estava bêbado; afinal, para querer transar com uma garota de programa sem preservativo, no mínimo ele precisava estar fora do seu estado normal. De que o restante dos meninos também não se encontravam exatamente sãos, ninguém duvida. O que me intriga é o argumento de defesa. “Estava bêbado”. Com certeza, tivesse saído com um travesti, esse não seria o argumento. Porque todos sabem o que os antigos já sabiam, a bebedeira não é desculpa para cometer qualquer asneira. Algumas valem, outras não. In vino, veritas, diz o provérbio latino: “no vinho está a verdade”. Ou seja, quando bebe, o sujeito acaba trazendo à tona um eu mais real que o eu que mostra no dia a dia. E, sendo assim, existem pelo menos dois tipos de bobagens que podemos cometer: 1) aquelas para as quais nem a bebedeira vale de desculpa; e 2) os pecados menores, que todos compreendem desde que o sujeito esteja fora de si.
Quando um jogador de futebol diz que espancou uma prostituta, alega embriaguez com uma naturalidade incrível, enquanto que, ao dar o calote em um travesti, nem sonha em usar o mesmo argumento.
Vamos tentar entender o raciocínio da defesa que o atleta do Flamengo usa. Ao alegar que “estava bêbado”, ele quer dar a entender algo como “Olha, tenho certos impulsos que não são exatamente corretos, mas que durante o dia a dia eu faço o possível para controlar. Nessa ocasião em especial, me excedi, mas é que estava fora do meu estado normal. Por uma coisinha à toa assim, o direito que uma prostituta tem de não apanhar, não vamos estragar a minha imagem.”
Dentro de nossa cultura, alguns desejos são considerados bacanas, válidos, lícitos. Outros, desejos que até podemos ter, mas que devemos controlar em público. Por fim, há um terceiro grupo, os abomináveis. Comer carne em público, para nós, ocidentais, normalmente é considerado lícito; não preciso negociar com ninguém, basta chegar ao restaurante, fazer um pedido e aguardar. Se o prato não vem, há inclusive o direito a reclamação. Mas claro, existem limites para essa degustação. Não se pode colocar o bife no piso e comer com a boca imitando um cachorro enquanto se lambreca as bochechas rosnando, pois isso constrange os outros clientes. Este desejo seria classificado como um passível de controle. Não chega a ser abominável porque, uma pessoa alterada por doses de cachaça, brincando de comer no chão durante uma festa, imitando um cachorrinho, provavelmente provocaria risadas, além de algum nojo, mas nada além disso. No entanto, torturar um frango que será abatido já descamba para os desejos considerados ilícitos. A maioria das pessoas, não acharia muito correto, e nem a embriaguez justificaria.
Claro que, em alguns lugares as pessoas até gostam de ver os touros sofrendo – como na Espanha. Em outros, como em partes da Índia ,não se pode comer carne de jeito nenhum. Isso depende das culturas.
Mas culturas à parte, em nossa discussão, o fato é que ter sexo com travesti está claramente na categoria abominável. O jogador de futebol não pode dizer que o praticou “só” porque estava mal; como já dissemos, a bebida revela um eu mais verdadeiro do jogador, e não é bem isso que se espera dele. Por outro lado, que curioso, no caso do atleta do Flamengo ficamos em dúvida: ter sexo com uma prostituta cai em qual categoria? É lícito? Deve ser ocultado? Ou se trata de algo abominável? E, pensando no lado da prostituta, a profissão em si é lícita, deve ser escondida, ou asquerosa? O fato de privá-las do direito à saúde é lícito? E espancá-las?
O atacante dá a entender com seu argumento para justificar as desculpas à moça que a) apesar de contrariar a lei, fazer sexo com prostitutas é lícito, afinal, ele sequer pediu desculpas por isso; b) não usar preservativos também é lícito nesses casos (agradecemos desde já a lição de prevenção à AIDS para os adolescentes, Marcinho); o problema todo é c) espancar prostitutas, isso sim é falta leve: basta alegar embriaguez e ponto: me safo da coisa toda.
Curiosíssimas revelações. 1) já ficou claro, o travesti tem uma espécie de lepra social. O simples fato de alguém estar em contato com ele já desmoraliza completamente o sujeito, trata-se de uma falta abominável a priori. Por um lado é bom, porque creio que nenhuma pessoa famosa possa cogitar em bater num deles. 2) a prostituta está abaixo da categoria “gente”, apesar de não ser portadora da mesma praga que o travesti; 3) se ser um jogador de futebol é ou foi o sonho de quase todo homem brasileiro, e se os jogadores de futebol amam muito tudo isso, bom, tenho até medo de completar o raciocínio.
Voltando ao caso do Marcinho, para quem fazer sexo com prostitutas é considerado bacana, inclusive fazer sexo sem o preservativo. Agora, o jogador tratar a mulher do mesmo modo que uma égua e se sentir no direito de castigá-la caso a cavalgada esteja em desacordo com as expectativas, isso é falta leve que a bebedeira justifica. A título de comparação, se dou um murro no garçom porque ele não me deixou comer o bife no chão como um cachorrinho, vou preso na hora, ainda que esteja bêbado, ou drogado. E todos vão achar muito justo que meus atos deponham contra mim, ainda que haja atenuantes. Dificilmente vou escapar de uma multa, pelo menos. Com a égua acontece o mesmo. Mas a prostituta não deve estar no mesmo nível.
Vamos tentar entender a situação da profissional do sexo, porque está difícil lidar com a classificação da falta do Marcinho. O paizão normalmente leva todo orgulhoso o filho para a estréia em um prostíbulo. Mesmo aquelas senhoras mais conservadoras que o reprovam, desde o tempo de Fraülein vão considerá-lo no máximo “travesso”. Porém a profissão (tão antiga e tradicional) ainda carece de registro. É crime ou contravenção, por acaso? Na prática, ficamos sem resposta. Legalizado não é, mas a senhorita do ramo também não pode ser presa ou pagar multa por suas ações. O cafetão sim, este que em muitos casos proporciona a mínima segurança e infra-estrutura às moças, este deve ser preso. Porque, apesar de bacana, prostituição é crime.
Como sempre acontece com as minorias, colocam a prostituta na terra de ninguém. A lei protege, a prática alopra. Ela passa a depender da opinião pública, como já vimos, dividida a grosso modo em três faixas: os que dão risada e tratam tudo como parte do eterno arranca-rabo do povão; os que se calam e os que acham bem-feito que ela tenha apanhado.
E o que diz a reportagem, já que é o principal veículo de opinião pública, única proteção da moça? A matéria vê tudo como uma curiosidade, algo para fazer rir. Pouco opina - apenas dá os fatos. O título apenas destaca o que existe de mais espetacular e impressionante em tudo isso e que vai chamar a atenção das pessoas: o jogador pede desculpas à prostituta. De fato, pior que isso, nem dar bom dia a cavalo. Francamente Marcinho... Rebaixar-se desse modo.
6/06/2008
A melhor equipe da Libertadores?
Num rasgo de humildade característico, o Olé mostra, através do comentarista Enrique Hrabina como se recebem as derrotas na Argentina.
Notícia original:
http://www.ole.clarin.com/notas/2008/06/06/futbollocal/01687956.html
É uma lástima que o Boca tenha ficado de fora, mas todos devem estar com a certeza de que foram a melhor equipe da Copa, a que teve mais personalidade, mais caráter, a que mostrou o jogo mais claro. Todos sabem como joga, e, mesmo assim, nunca o puderam controlar. Por isso digo que foi uma desgraça. Porque jogasse onde jogasse demonstrou ser muito superior a seus rivais.
Porém nessas partidas os erros se pagam caro. Por isso, a grande quantidade de situaçoes claras de gol que não puderam converter pode ser uma explicação de porque ficaram de fora. As lesoes também, mas todas as equipes têm esses contratempos. Além disso, teve a desvantagem de não poder fazer sua partida local em La Bombonera, onde faz pesar sua superioridade. Apesar de tudo, demonstrou que não houve outra equipe melhor.
De todos os modos, o balanço é positivo. Fez-se todo o necessário para chegar, mas o futebol é assim. Às vezes não ganha quem joga melhor. Não existe equipe perfeita.
É isso mesmo que vocês viram, nenhuma linha falando de algum possível mérito do Fluminense (que provavelmente caiu de pára-quedas aí, mesmo goleando o San Lorenzo por 6 a 0 na primeira fase).
5/26/2008
Anarquia
O pajé sentar-se-á conosco em roda solene,
E todos estaremos atentos e reverentes às suas palavras mágicas
Que nos encherão de sentido como a água um vaso seco.
Um dia não nos obrigarão a ficar acordados
Belas índias guardarão de flores fantásticas os segredos de nova jurema,
E todos sentirão seu sopro de paraíso
Que nos arrastará num refluxo de águas ancestrais.
Um dia não estaremos sozinhos.
Cada outro fará realmente parte da tribo e de nós mesmos.
Não mais nos será tormentoso o silêncio
Que se derramará como brisa dentro de nós, espargindo paz.
Fechada a última escola,
Cessada a pulsação estéril das cidades,
puros novamente, vento e água...
Um dia guiaremos metade do destino.
Nossos caciques dormirão ao nosso lado, tranqüilos,
E todos estaremos certos de que sua presença nos fará bem,
Porque não os invejaremos: antes, gratos lhes seremos.
Um dia dividiremos.
Sentados, à sombra de árvores generosas, todos repartiremos
Frutos, carinhos, pensamentos, com quem quiser ouvir, comer, amar.
Porque para sempre esqueceremos que algum dia alguém disse “isto é meu”.
Um dia guerrearemos em paz.
Solenemente, jogando torneios pacíficos em capueras, ruidosos,
E os jogadores receberão como agulhas no peito, espicaçando-os
Os olhares de jovens em fogo.
Um dia amaremos.
Homens e mulheres, nus, alacres, beijar-se-ão em mistura colorida.
O sangue errará em muitas veias, indistinto,
Porque crianças verão tudo sem medo.
Brutos como flores,
Coloridos como pedras,
cheirosos como vento,
na justa medida.
Um dia, enfim, voltaremos para a densa mata,
E suas flores de prata nos dirão cânticos que repetiremos aos rios.
E todos seremos cantores, e todos seremos serenos,
Porque não mais teremos medo de amanhã.
E, nessa mata, voltaremos para o solo
Sem o pavor dos vermes; antes, com a alegria de sementes,
Todos nos entregaremos sem rancor à terra, despendido-nos tranqüilos dos que forem ou ficarem
Porque estaremos certos: nossa uma vida terá bastado.
4/07/2008
Sobre o silêncio
Onde estão os contadores de estórias? “Desapareceram”, ouço alguém dizer, no fundo da sala; “estão para antes dos anos trinta” completa outra voz. Rio. E digo:
“Não, quem dera tivessem desaparecido os contadores de estórias durante a década de trinta. Talvez os bons tenham desaparecido, os contadores sólidos, de carne e osso. Mas creio que a realidade seja bem pior.
“Vou contar uma estória”, continuo, “a estória do contador fantasma diáfano-de-símbolos-dispersos-e-coesos. Há algum tempo, em algum lugar, os contadores de estórias humanos começaram a ser substituídos. A gente pensa que eles desapareceram, mas na verdade eles foram substituídos.
“A gente sempre baseia nossa visão de mundo nas estórias que nos contam, como vocês sabem. Por mais que tentemos ser racionais, por mais que estejamos num mundo científico, ainda que o jornalismo seja objetivo, que as imagens da televisão “não deixem margem para dúvidas”, e que os especialistas despejem seus números como um tapete que sai da tela e invade a mesa do jantar enquanto os meninos dormem em cima da sopa de letrinhas quente em cima da mesa (o irmão mais velho lê uma revista em quadrinhos), por mais que tudo pareça tão “natural”, a maneira com que vamos julgar aquele menino da favela segurando uma AR-15, ou o palestino atirando uma pedra contra um tanque israelense, ou ainda o mais novo descobrimento da ciência, que diz que um gene é responsável pela capacidade de julgamento, tudo isso é fruto das histórias que nos contam, sejam histórias de patriotismo, histórias de guerra ao terror, de guerra contra o tráfico, de guerra contra a corrupção.
“Essas estórias obviamente não são contadas da maneira tradicional, a antiga, em que um velho senhor se sentava numa pedra sob as sombras generosas de uma árvore e começava um relato articulado que trazia consigo o silêncio. Não são estórias sólidas e calmas essas, que nos tragam sabedoria, definitivamente não são. Elas são filhas do ruído, da confusão, do caos. São estórias que vêm em estado líquido ou gasoso, ou em forma de ultra-som, mas sempre sem autoria, por todos os lados, cada qual como um pequeno fragmento explosivo incrustar algo em nossa mente. Na sugestão da sintaxe dos jornais, no anúncio de chicletes, na roupa da atriz, no enredo do filme, as necessidades de alguma coisa oculta imprime sua marca, e movimenta esse estranho contador – fantasma diáfano de símbolos dispersos e coesos.
“E quais estórias nos vêm contando esse contador fantasma-diáfano-de-símbolos-dispersos-e-coesos? São estórias que drenam por um ralo e atiram no esgoto do ridículo toda a sabedoria que uma pessoa possa ganhar ao longo de sua vida. São estórias que dispensam palavras – quase dispensam ouvintes. O herói dessas fábulas é na maioria das vezes um jovem belo que tem uma varinha mágica dada pelo seu amigo mago. Essa varinha, feita de dinheiro puro, dinheiro vaporizado em roupas, gestos, prestígio, palavras, faz com ele deixe o mundo em torno de si colorido. A princesa se atrai naturalmente pela sua aura monetária, e é seqüestrada por algum velho e feio e pobre que quase dispensa outros adjetivos. Um homem de estórias covarde, invariavelmente covarde, ameaça estragar tudo com seu blá-blá-blá tartamudeador – que é a maneira com que se designa a sabedoria antiga– , mas uma deusa inspiradora sopra no ouvido do herói de que são feitas suas velhas lamúrias, e com uma mágica, este lança traças que derretem a língua do poltrão, que cai desfeita em tinta no piso – todos riem de suas boas intenções, e no final, ele pode acabar até lutando ou morrendo uma boa morte.
“O script se repete tanto que mesmo em face do maior encanto, dele se encanta mais o nosso pensamento. Por fim se infiltra na realidade, vira “natureza”. E até hoje, nossos dias mesmo, em todos os meios onde entra o dinheiro, entra o contador-fantasma-diáfano-de-símbolos-dispersos-e-coesos.” Sorrio porque consegui conjurar silêncio. Por um instante, o ruído ficou de fora, espreitando as janelas.
As pessoas pararam e escutaram. “Até amanhã, gente”, aceno da porta, “tragam perguntas”, e saio, antes que ele invada a sala e espalhe balbúrdia.
4/04/2008
Sobre os transgênicos.
A lei manda que os artigos tenham um aviso no rótulo, um triângulo amarelo com um "T" no centro. Eu, sinceramente, só conheci o símbolo através de blogs e revistas alternativas, nunca vi num produto de fato.
Mas para quem quiser evitar, na medida do possível, os produtos transgênicos, pode consultar o guia do consumidor no site do greenpeace.
http://www.greenpeace.org/brasil/transgenicos/consumidores/guia-do-consumidor-2
Aqui vão os links de algumas reportagens sobre o tema:
Ponto de vista "neutro", que eu prefiro classificar de omisso, porque não discute as vantagens ou desvantagens para o consumidor dessa medida:
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2008/03/15/curitiba_protesta_contra_liberacao_de_milho_transgenico-426254258.asp
http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u371778.shtml
Esse artigo do Stédile é bom, ressalta bem as desvantagens dessa aprovação. Vale a pena.
http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/milho-transgenico-a-quem-interessa/
E por fim, um protesto contra o fato de que a Vigor não cumpre a lei e mantém sem rótulo os seus alimentos:
http://www.greenpeace.org/brasil/transgenicos/noticias/ministerio-p-blico-de-sp-inves
Mais links do Shibata
http://dceuem.blogspot.com/2008/03/entrevista-com-valrio-arcary-na-revista.html